AFINAL EU É QUE TINHA RAZÃO
No mês em que fiz 18 anos deram-me a carteira profissional de músico. Com o devaneio próprio da idade, cheguei a pensar que era precoce. Nos cinco anos anteriores tinham-me coberto de ilusões acerca da minha condição de "orelhudo", com licença ministerial especial, aos 14, para poder dedicar-me à Música a sério - e a carteira foi a cereja no topo do bolo. Passado um ano, abandonei o instrumento.
Enxerguei que ninguém me levava a sério - nem a mim, nem ao instrumento que eu sentia estar longe de tocar a um nível satisfatório. Porque aquele é (ao contrário do que quase todos pensam) o instrumento mais difícil, mais completo, mais central na Música. E eu nunca o conseguiria tocar a um bom nível. E não consegui. Dediquei-me a outros instrumentos, vários, e com eles continuei e cá me vou entretendo.
Hoje, já sexagenário, sei que era eu quem tinha razão. Aquele instrumento não é para qualquer um.
SENRI KAWAGUCHI, uma menina japonesa que aos 11 anos (onze) já comandava os músicos mais requintadamente seleccionados para tocarem com ela, é a mais eloquente prova de que eu tinha razão. Este instrumento é mesmo o mais difícil, completo e inspirador de todos.